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04/05/2011

Adiar gravidez expõe mulher a miomas

Por Mariana Lenharo - Jornal da Tarde

Uma das áreas mais promissoras de pesquisa na área da saúde é sobre a dor. Como quantificar o que cada um sente e como isso poderia ajudar a tratar um paciente? Essas mesmas questões estão sendo usadas para entender o desconforto que algumas pacientes sentem após o parto. A cada 100 nascimentos de parto cesárea, 15% das novas mães sentem um desconforto muito grande em relação ao alívio da dor. Elas são um grupo de risco para doenças crônicas no futuro. “Toda cirurgia é uma forma de agressão ao sistema nervoso. Se você não o deixa bem protegido, pode haver sequelas, como a dor”, afirma Mônica Siaulys, doutora em anestesia, responsável por esse setor no Hospital Santa Joana (SP) e uma das responsáveis pelo estudo no país. A resposta para esse problema está na anestesia. Um grupo formado por universidades norte-americanas e pesquisadores desse hospital vão avaliar como 800 gestantes respondem à dor e, assim, mapear quais delas poderiam receber uma anestesia diferenciada antes da hora do parto. Hoje, a morfina é dada em todos os casos pré-operatórios. Se os resultados preliminares do estudo forem confirmados, esses 15% poderiam receber outros medicamentos e, assim, ter um pós-parto mais confortável.

Ao adiarem a gravidez para depois dos 35 anos, as mulheres se tornam mais vulneráveis ao surgimento de miomas no útero, que atingem até 80% da população feminina, de acordo com os médicos. Só no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, são atendidas cerca de 400 mulheres por mês com a doença. Esse tipo de tumor, embora benigno, é o principal responsável pelas cirurgias de retirada do útero (histerectomia), que já está entre os procedimentos mais comuns da área ginecológica e impossibilita gestações posteriores.

"Hoje, se fala muito mais em mioma porque as mulheres começam a vida reprodutiva mais tarde", diz o ginecologista e obstetra Alberto d´Áuria, do Hospital e Maternidade Santa Joana. Segundo ele, a gravidez é o único fator reconhecidamente protetor contra a doença. Isso porque o mioma é "alimentado" pelo hormônio estrógeno e inibido pela progesterona. "Durante a gestação, a produção aumentada de progesterona durante 14 meses atua como um tratamento suficiente para amansar e acalmar as células que estão na iminência de se multiplicar e se transformar em mioma", completa o especialista.

Cerca de 25% das mulheres com mioma sofrem com os sintomas da doença, caracterizados por dor, sangramento e infertilidade. Nesses casos, o tratamento do tumor pode ser de várias formas (veja quadro acima): há opções clínicas, com a administração de remédios que minimizam os sintomas, mas apenas a técnica cirúrgica é capaz de impedir a reincidência da doença, afirma o médico Nilo Bozzini, responsável pelo Ambulatório de Mioma Uterino do HC. "A histerectomia é uma das alternativas mais eficazes", diz. No HC, por exemplo, entre 50% e 60% das pacientes passam pelo procedimento cirúrgico.

A assistente administrativa Rosana Monteiro, de 42 anos, descobriu ter dois miomas mas ainda não sabe qual tratamento irá adotar: histerectomia ou laparoscopia. "Como não pretendo ter filhos, eu tiraria tudo. Mas estou com dúvidas porque tem gente que diz que tirar o útero não é bom para a saúde da mulher."

O ultrassom mais recente feito por Rosana apontava que os miomas já estavam com quase 10 cm. Ela lembra que, no início do quadro, há três anos, o problema chegou a ser confundido com outras doenças. "Sinto muita dor e, a princípio, achei que era por causa de pedras nos rins que eu costumava ter", conta. Por causas das dores, ela diz que vive à base de analgésicos cinco dias por mês, sempre antes do período menstrual.

Obesidade e hipertensão.

A doença tem forte componente genético, mas há alguns outros fatores de risco - além da gravidez tardia - que são observados na prática clínica: obesidade e hipertensão estão entre eles, segundo o ginecologista Eduardo Zlotnik, do Hospital Israelita Albert Einstein. Além disso, mulheres negras são mais suscetíveis ao problema se comparadas às brancas e asiáticas.

"Infelizmente, não sabemos por que uma célula começa a se multiplicar de forma desordenada. É uma doença hormônio-dependente e vemos que mulheres que usam anticoncepcional oral correm menos riscos, mas não conhecemos uma ação preventiva forte", diz o ginecologista Rodrigo Aquino Castro, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Icesp tem técnica experimental para destruir tumores

No mês passado, o JT revelou que o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) começou a testar um novo equipamento capaz de destruir tumores por meio de ondas de ultrassom superpotentes. O primeiro tipo de tumor a ser tratado experimentalmente pelo High Intense Focus Ultrassound (Hifu) foi o mioma. No momento do anúncio, o equipamento já tinha sido usado para tratar miomas de seis mulheres com sucesso. A vantagem da técnica é o fato de ser pouco invasiva: não há necessidade de cortes e o tumor é eliminado sem a danificação de tecidos adjacentes.

O Hifu combina a ressonância magnética, que permite localizar o tumor com precisão, com um feixe de ultrassom cerca de 20 mil vezes mais potente do que o usado em exames de imagem. Esse feixe é direcionado apenas para o tumor e a temperatura no local chega a 80ºC. Assim, o tumor é queimado sem danificar os demais tecidos.

A técnica ainda não está disponível em larga escala, sendo usada experimentalmente em pacientes selecionados pelo Icesp.

PINGUE-PONGUE: Nilo Bozzini - ginecologista responsável pelo ambulatório de mioma uterino do hospital das clínicas - ‘Maioria não provoca Sintomas’

Como o mioma uterino costuma ser diagnosticado?

Apesar de 80% das mulheres terem mioma uterino, a maioria é assintomática, ou seja, sem sintomas. Elas acabam descobrindo o problema em exames ginecológicos de rotina ou, então, procuram o médico por causa de sangramento, dor, aumento do volume abdominal ou infertilidade.

Quais são as alternativas de tratamento para a doença?

A maioria dos miomas não requer tratamento específico. Para os casos que pedem tratamento, o que resolve tudo é a retirada do útero, mas é uma técnica que não se aplica a todo mundo. Uma jovem que deseja gravidez deve ser submetida a um tratamento conservador. Já para uma paciente que tem prole determinada, a histerectomia, ainda que muitos critiquem, é um tratamento eficaz que não compromete a sexualidade nem a feminilidade da paciente. Os tratamentos cirúrgicos conservadores são a miomectomia, em que se retira só o mioma, e duas técnicas novas: a embolização e a ablação por ressonância magnética. Em alguns casos, anti-inflamatórios podem ser usados para diminuir sangramento e dores.

No caso do Ambulatório do HC, que parcela faz a histerectomia? No HC costumam cair quadros clínicos difíceis. Das pacientes que recebemos, de 50 a 60% vão para o tratamento mais radical, a histerectomia. Ainda que existam tratamentos mais novos, que constituem alternativas, a retirada do útero ainda é uma das técnicas mais utilizadas.

A histerectomia oferece riscos?

Como em qualquer cirurgia, existem riscos, mas hoje a execução do procedimento é tecnicamente avançada. Não existe tratamento único e não existe o melhor tratamento. Existe o melhor tratamento para cada pessoa, considerando o quadro, a idade e as circunstâncias de vida.

TRATAMENTOS

CLÍNICO
• Anti-inflamatórios: minimizam dores e sangramentos, mas não diminuem o mioma
• Análogos do GnRH (hormônio): simulam a menopausa, diminuindo mioma e do útero. Mas não é um tratamento definitivo

CIRÚRGICO
• Histerectomia: retirada total do útero, sem risco de reincidência
• Miomectomia: retirada do mioma por meio de técnicas diversas, mas há risco de retorno dos miomas
• Embolização: Com um cateter, são inseridas partículas pela artéria que nutre o mioma, que morre com o fim do fluxo de sangue

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